Friday, March 28, 2014

Um local... Onde Pessoa inspira a excelência

Quem passa pelo n.º1 da rua da Trindade, paredes meias com o largo do Carmo, não imagina que em tempos idos Fernando Pessoa fez desse espaço a sua casa. O lado esquerdo para ser mais preciso. Foram quatro anos de vida, de escrita, de pensamentos, de palavras, de versos... Enfim, de estórias que ainda hoje preenchem o nosso intelecto e nos fazem pensar mais além.

Este espaço sui generis, para muitos, desconhecido e para quase todos, distante, foi afinal a segunda casa onde o poeta permaneceu mais tempo, quatro anos (Campo de Ourique foi o seu lar de eleição).

Ontem a casa de Fernando Pessoa, hoje um espaço cultural resenhado, ecléctico e que busca, na inspiração de Pessoa, a excelência. Democraticamente aberto ao mundo - como a poesia do poeta -, o n.º1 da rua da Trindade dá as boas-vindas de braços abertos a todos aqueles que desejam exprimir a sua arte. Pintura, escultura, artesanato ou mesmo shiatsu... Tudo é possível e "cabe" entre aqueles dois braços ávidos de abraçar a cultura que cada artista traz dentro de si.


Uma mescla do passado e do presente encontram-se, cruzam-se e aceitam-se de bom grado criando uma sinergia que tem tudo para ter sucesso doravante. A arte contemporânea completa a cadeira, a mesa ou máquina de escrever do final do séc. XIX, início do séc. XX que teimam em não perder a vida que os encerra.

Entre trabalho, tertúlias e workshops todos os que tiveram a coragem de dar o passo em frente, descobrirão o mundo novo que não se desligou do passado.


Deixa-te seduzir por este espaço com os ecos e o "charme" do Pessoa!

2 comments:

  1. Boa casa. Mas gosto mais da casa do Largo de São Carlos.

    Ó sino da minha aldeia,

    Ó sino da minha aldeia,
    Dolente na tarde calma,
    Cada tua badalada
    Soa dentro da minha alma.

    E é tão lento o teu soar,
    Tão como triste da vida,
    Que já a primeira pancada
    Tem o som de repetida.

    Por mais que me tanjas perto,
    Quando passo, sempre errante,
    És para mim como um sonho,
    Soas-me na alma distante.

    A cada pancada tua,
    Vibrante no céu aberto,
    Sinto mais longe o passado,
    Sinto a saudade mais perto.

    O poema "O sino da minha aldeia", publicado na revista Renascença, no ano de 1914, diz muito dos sentimentos do poeta, relativamente à sua infância. Em 1913 (data em que o poema é escrito), Fernando tem 25 anos, uma idade em que é “normal” o surgimento de uma maturidade intelectual, que leva da adolescência à idade adulta. Mas o que o perturba são ainda as memórias de uma infância feliz, se bem que muito breve, face aos problemas que o assolavam na sua adulta juventude: a instabilidade das emoções, a investigação de temas “maiores do que ele próprio”, a sua “obra” e principalmente a sua “missão”.

    João Gaspar Simões, primeiro biógrafo de Pessoa, aborda na sua Vida e Obra de Fernando Pessoa o tema da juventude sob o título sui generis de “Paraíso Perdido” (págs. 17-28 do Volume I). Compreende-se este título, se compreendermos as circunstâncias da vinda a este mundo do poeta. Ele nasce no n.º 4 do Largo de São Carlos, 4.º andar esquerdo, em Lisboa. Nasceu portanto entre um teatro – o Teatro de São Carlos – e uma igreja – a Igreja dos Mártires. Entre uma igreja popular, tipicamente lisboeta e um teatro das elites, o primeiro teatro lírico português, onde se encenavam as grandes óperas, a que muitas vezes o seu pai assistira na condição de crítico para o Diário de Notícias. Para o rapaz, ficarão para sempre marcadas na memória as badaladas do sino daquela igreja do Chiado, num timbre que se misturaria progressivamente com aquele timbre indistinto, apenas reconhecido pela sensação de vaga felicidade e despreocupação. A sua vida de aldeia, que ele refere no poema, é uma vida de idílio despreocupado, em marcado contraste com a vida citadina que o esmaga e preocupa, quando já não mais uma criança, luta contra se tornar um adulto.

    São esses primeiros cinco anos de vida edílica que para sempre ficam na sua memória, como um conforto falso a que recorre quando o desespero o invade e o domina. A memória do apartamento espaçoso, que respirava um ambiente vagamente aristocrático, escadarias abertas e iluminadas, para um largo aberto e limpo, servia para serenar e pacificar. Isso e as “poeiras musicais” trazidas pela figura do seu pai – cujas feições ele mal recorda, e que morre quando ele tem cinco anos – com o qual ainda festejava os seus anos, enquanto era amado, filho único, “menino de sua mãe”. São os anos em que sobretudo a vida é apenas para ser vivida e não pensada. Uma vida que nunca mais retornaria igual senão como “um sonho”, a “soar-lhe na alma distante”.

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  2. Acho que até neste particular, Fernando Pessoa foi único. Deixou em cada recanto um pouco de si, do seu génio, do seu ser para que todos quantos passem por Lisboa possam daí beber um pouco de ensinamento.

    Largo de São Carlos, Campo de Ourique, Rua do Carmo ou Restauradores são alguns dos locais por onde o poeta passou e deixou a sua marca, mesmo que umas mais vincadas de que outras.

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