A película em causa dá pelo nome de “Vénus de Vison” ou “La
Vénus à la Fourrure” para os mais puristas do cinema.
Não sendo um filme para as massas, não deixa de estar em
salas, ditas comerciais, como são as da Zon Lusomundo. Porém, Polanski optou
por fazer, em França (não pode trabalhar nos Estados Unidos), um filme de baixo
custo – não de série B – mas com a qualidade que se lhe reconhece.
Muito ao estilo do realizador, o “Vénus de Vison”
aparece-nos na tela ao ritmo a que o polaco nos habituou e que nos leva a despender
tempo para nos… habituarmos. A primeira parte é morna, quase enfadonha, mas o
diálogo entre as duas personagens (as únicas, por sinal) é algo de arrebatador,
que nos prende a cada palavra, numa mistura de comédia e drama, misturada com
uma pseudo-vingança da actriz (do filme e no filme) Emmanuelle Seigner para com
Sacher-Masoch, criador do sadomasoquismo.
Aos primeiros minutos de indecisão do encenador (Mathieu Almaric) sobre a possibilidade de a deixar fazer um casting, junta-se, de forma
mordaz, uma conversa – quase fiada – da actriz para que pudesse ter a
oportunidade de ser a escolhida na peça de teatro. Num quase monólogo, Vanda
transporta para o Thomas uma baralhação que é transversal a quem vê a película
numa sala de cinema.
Cedendo à oportunidade quase implorada, mas, no fundo,
conseguida com muita mestria fruto de uma argumentação sem igual, Thomas
começa, aí, a perceber que encontrou em Vanda – finalmente – a actriz perfeita
para a peça de teatro que encena. Nos minutos subsequentes, os (únicos) dois
protagonistas do “Vénus de Vison” entram num jogo de sedução, de domínio e de
cedência física e intelectual que dá outro “ritmo” ao filme.
De repente, quem o vê na sala de cinema confunde-se com a
ligação quase umbilical que Roman Polanski consegue dos dois argumentos (o do
seu filme com o da peça de teatro encenada por Thomas), mostrando a sua
qualidade como realizador que tem o mérito de conseguir prender, aí, o
telespectador até ao cair do pano.
Depois de “Rosemary's Baby”, de “Frantic”, de “A Nona Porta”,
de “O Pianista” e de “Oliver Twist”, “La Vénus à la Fourrure” surge como a sua
última obra que difere das restantes no seu baixo custo, pois tem
apenas dois
actores e passa-se (quase na íntegra) dentro de uma sala de teatro fechada, com
pouca luz… A isto chama-se fazer muito com pouco!


