Donald Trump venceu as eleições americanas contra as
notícias que vinham chegando por via das sondagens feitas um pouco por toda a
América.
Os europeus estavam descansados; os mercados estavam
descansados; o resto do mundo estava descansado.
Os americanos não o quiseram e passaram uma mensagem que
alguns já tinham percebido, mas que a maioria não quis entender. Os americanos
não acreditam neste sistema político, estão farto dele e querem algo diferente.
Donald Trump percebeu isso, apelou ao sentimento - mesmo que
mais primário das pessoas - e foi galgando degraus. Para os americanos, Donald
Trump é a personificação do "American Dream". Um homem que ficou rico
(o pai ajudou com um milhão de dólares), perdeu tudo e reergueu-se até ser o
multimilionário que hoje é.
Com Trump muita coisa vai ser diferente mas não tanto quanto
ele apregoou na campanha. O Partido Republicano não vai em loucuras vãs.
Analisaremos, portanto, o que pode mudar na política interna…
Proteccionismo
Esta é uma das palavras que tem de entrar no léxico dos
europeus e vão percebê-lo da pior forma. Os EUA vão virar-se para dentro. Trump
quer recuperar capital americano investido fora do país, quer o pleno emprego e
quer crescimento económico. Para isso acredita que não precisa da Europa. Em
boa verdade, não precisa assim tanto. Com Trump vão ser primeiros os
americanos, depois os outros.
Obama Care
Barack Obama ficará na história ao providenciar cuidados
básicos de saúde a toda a população. Donald Trump não quer saber e os números
divulgados ajudam-no. Manter o Obama Care é uma loucura em termos financeiros.
Problema? Estamos a falar de pessoas e de saúde pública. Para o republicano é
mais: "i don't care. Money talks". Isto é um retrocesso muito
perigoso. Veremos o que acontece.
Tensão racial
Trump, só por aparecer, cria essa tensão racial e isso
deve-se ao que instigou ao longo da campanha eleitoral. Não acredito que se
volte à segregação, mas a tensão vai crescer e pode tornar-se insustentável.
Trump tem de ser mais moderado nesta matéria, pois nem ele quer ser apanhado no
meio de um problema criado pela sua própria demagogia.
Apesar de se querer virar mais para si mesmo, os EUA não vão
(nem querem) isolar-se do mundo. Eis o que pode mudar em termos externos…
NATO
Donald Trump despreza a NATO, o que ela representa e não vê
nela qualquer utilidade. Para o novo Presidente americano, a NATO tem sido um sorvedouro
de vários países de dinheiros dados pelos EUA. Esta é uma visão bastante retrograda
do que representa a NATO desde a sua criação, em 1947, no pós-Segunda Guerra
Mundial.
Donald Trump deve debruçar-se sobre os dossiês da NATO para
perceber melhor que os acordos, apesar de beneficiarem a Europa, vão de acordo,
essencialmente, às pretensões americanas. Desvalorizar a NATO e trabalhar num “mundo”
paralelo é destruir o que foi feito ao longo de anos, destruir a Ordem Mundial
e criar uma nova que não se sabe no que pode dar.
Líderes controversos
Donald Trump já admitiu apreciar Vladimir Putin e Bashar al-Assad,
respetivamente líderes da Rússia e da Síria. Esta ligação estranha, no mínimo,
à Rússia é mais uma prova da pretensão de Trump em querer distanciar-se da
NATO. Mas o que é verdadeiramente Putin? A Rússia é tudo menos o comunismo como
o conhecemos. O homem está longe de ser um Estaline, mas não deixa de ser uma
figura controversa. De facto, Putin é um nacionalista russo, um ex-KGB, cuja
escola obedece e faz obedecer a um rigor de que o Presidente russo não abdica.
Todavia, a Rússia é hoje mais ocidental do que alguma vez fora. O capitalismo é
uma realidade e neste país vê-se mais ostentação do que predominância da classe
operária tão familiarizada com o partido da foice e martelo.
Hoje, a Rússia não é uma nação capaz de ser uma ameaça
mundial. É-o à Ucrânia e isso não é de somenos. Em comum, o facto de estarmos a
falar de dois narcisistas convictos.
Estar perto de Bashar al-Assad é bem mais perigoso. O homem
tem laivos de ditador e teve atitudes para com a população que o deveriam
obrigar a ser julgado pelo Tribunal dos Direitos do Homem, em Haia. Esta
proximidade, a mim, parece-me que terá mais que ver com o ISIS do que com
qualquer outra situação.
Médio Oriente
Com o Partido Republicano no poder é quase certo que os EUA
entram em guerra. O lobby das armas é
fortíssimo e isso vê-se no Senado e na Câmara dos Representantes em que a Lei
que visa proibir a venda de armas não tem passado.
Donald Trump, em várias intervenções, disse querer acabar
com o Estado Islâmico e por certo vai avançar. O Médio Oriente é estratégico em
termos políticos e económicos, como demonstraram antes Bush pai e Bush filho.
Trump não deve ter uma atitude menos belicista do que os antecessores. Depois
da retirada das tropas do Afeganistão por parte de Obama, eis que regressam ao
terreno inimigo, agora, muito provavelmente, a mando de Trump.
