Saturday, January 24, 2015

Altice: mal necessário para a PT ou o negócio possível?


Após cinco horas de reunião parece ter terminado o imbróglio em que estava à venda da PT. 98% dos accionistas aceitaram o negócio com o grupo francês. Esta é a notícia, de forma factual e objectiva.  

Mas o tema vai muito para além disso. Em primeira instância congratular o facto de a Portugal Telecom se livrar de grande parte dos accionistas que ajudaram a arruinar uma empresa-modelo, e muito mais do que isso, uma empresa-baluarte da sociedade lusa; em segundo lugar - mas ligado ao primeiro ponto - conseguiu livrar-se do BES, accionista que teve a capacidade de destruir dois grupos fundamentais para o tecido empresarial, para a estratégia e para a finança de um país como eram os grupos PT e GES. É obra! 

O negócio com a Altice foi o possível, não o mais desejado por todos os accionistas, mas agora começa uma nova vida, sem que se possa desligar do passado. Novo dono, velhos problemas. Experientes na aquisição de empresas, os franceses nunca adquiriram tamanho monstro, mas há práticas que me deixam esperançado. A Altice é conhecida por ser muito agressiva no mercado em que se insere, rigorosa nas contas e tem um "fetiche" pela gestão eficaz. Todos estes me parecem bons tópicos, mas em quanto tempo quererá o novo dono da PT concretizá-los? 



 


Se o "timing" for curto, a redução de pessoal é o caminho mais fácil - e doloroso - a seguir (isto partindo do pressuposto que a PT não vai ser desmantelada em peças); se houver tempo para trabalhar tudo pode ser negociado: saídas para a pré-reforma, saída de excedentários, redução de custos da infra-estrutura (rendas, subcontratações, regalias sociais). No momento em que entra numa PT à deriva, com a cotação em bolsa no registo mais baixo de sempre, a Altice tem de pensar em todos os cenários, mas não pode esquecer a imagem do grupo para os portugueses e para Portugal.  

Não olvidando esta importância histórica, a Altice quererá ver a PT a continuar a entrar na maioria das casas dos portugueses com TV, Internet e telefone. 

Tuesday, January 13, 2015

Eu ainda sou Charlie

O atentado ao Charlie Hebdo, em Paris perpetuado pelos irmãos Kouachi - Chérif e Said - trouxe, entre outros sentimentos díspares, um corporativismo na classe jornalística até então desconhecida.

Já muito se falou na tragédia, nos culpados. Quem eram, como se conheceram (os três, pois convém não esquecer Amedy Coulibaly), como arquitectaram tudo, como e quando se aproximaram de militâncias islâmicas, quem os influenciou... O meio não justificou o fim, mas ajuda a explicar tal acto altamente reprovável.

Após o ataque gratuito, grotesco, inimaginável, condenável (e muitos outros adjectivos aqui poderiam ser colocados para caracterizar esta chacina), milhares, milhões de pessoas, jornalistas ou não, se solidarizaram com os jornalistas, cronistas e ilustradores assassinados. O semanário satírico francês ficou vazio, de luto, luto esse que se estendeu pelo Mundo numa revolta sem igual. A hashtag JeSuisCharlie tomou conta das Redes Sociais e opiniões fervilharam em catadupa, umas pró, outras contra. Uma verdade insofismável: ninguém ficou indiferente.


Este ataque teve o condão de criar nos jornalistas uma união que se desconhecia. No dia 7 de Janeiro e nos seguintes todos os jornalistas foram Charlie, todos se sentiram "assassinados", redacções inteiras - em jornais, televisões, imprensa - foram Charlie. Tenho de admitir que fiquei surpreendido. O movimento solidário da classe teve tanto de surpreendente como de louvável. Foi bonito, mas instantâneo. Já passou! Caso para dizer: "É tão bom, não foi?" E por que razão? A nossa memória é assim tão curta? Digo isto porque ainda não nos compusemos do choque e já via ataques ao Charlie Hebdo, ou melhor, ao trabalho que lá se fazia todas as semanas. Ou porque não se fazia jornalismo no semanário satírico, mas sim, dava-se opinião; ou porque ilustradores não são jornalistas; ou porque vários jornalistas e/ou órgãos de Comunicação Social não estavam a dar respostas e a fazer perguntas pertinentes (isto é, a fazer de forma deficiente o seu trabalho)...

Afinal em que é que ficamos? Somos todos Charlie ou fomos todos Charlie? Juntámo-nos por conveniência ou porque, realmente, sentimo-nos atacados enquanto jornalistas e no papel fundamental do jornalismo na sociedade: informar e ter a liberdade de se exprimir com ou sem humor (o estilo aqui é irrelevante)?


Não sou lírico. Em todas as áreas profissionais há competição. Em todas as áreas profissionais alguém quer ser melhor do que outrém. O jornalismo não é excepção, talvez seja até a regra, mas neste caso deveríamos ter a capacidade de ser diferentes, de ser melhores, de ser superiores a tricas e rivalidades, porque, no fundo, SomosTodosJornalistas!