Ontem, dia 10 de Março, vi o programa da RTP, "Prós e Contras". O tema versava sobre a emigração e dava pelo nome de "Ficar ou Partir". Tema tão interessante como as ideias lá debatidas pelas pessoas (não menos interessantes) lá presentes.
O tema é tão actual como agudizante e ambas as situações são válidas desde que bem justificadas e ponderadas. Partir é hoje tão legítimo como ficar. É natural, contudo, que quem opte por ficar, por acreditar em si, nas pessoas que o rodeiam, seja na vida pessoal como na vida profissional, não consiga perceber a lógica do partir. Nem sempre é fácil - e por vezes nem queremos - colocar-nos no lugar de outrém; partir obriga a outras contingências, a outros sacrifícios. Sem querer quantificar a importância, o peso ou a espessura dos mesmos, partir leva-nos a testar os nossos limites, a sair da zona de conforto, a adaptar-nos a realidades, culturas e pessoas diferentes. Mudamos a nossa forma de viver, de ver a vida...
Tenho familiares e amigos que, por esta ou aquela razão, tiveram de emigrar. Não é fácil deixar tudo para trás, largar as raízes, tudo o que se construiu, mesmo que seja um pequeno nada, para tentar tudo de novo num Mundo novo. Os amigos e familiares que o fizeram merecem todo o meu respeito por terem tido essa coragem que eu (ainda) não tive. Só por isto terão de ser valorizados e elevados a quase estado de pedestal em Terra.
Com poucas ou muitas habilitações, com emprego ou sem ele, os familiares e amigos que fui obrigado a largar mostraram-me que há ainda muito por conquistar séculos depois do tempo dos Descobrimentos. Eles, todos eles, com mérito e sabedoria, souberam preencher o seu espaço, conquistar as suas independências (e não falo apenas da financeira), as suas felicidades e, até, as suas famílias. O emprego é "apenas" o subterfúgio usado para justificar uma ida que possivelmente iria acontecer mesmo que esta não fosse a motivação primária. Esta coragem, este acto, fez-me sentir pequenino por nunca ter tido a coragem de tentar ser melhor fora da "minha" casa que tanto adoro. É, hoje, com manifesta felicidade e imenso orgulho que vejo o sucesso que vão fazendo por terras longínquas, elevando bem alto o nome de Portugal.

Todavia, ficar, hoje, não é tão bem mais fácil como outrora. Nos dias que correm, ficar é um acto de coragem, de benevolência para consigo e para com o País. Um País que sempre teve uma elevada tendência para emigração (por razões distintas), mas que agora, mais do que nunca, precisa da força laboral de todos (parafraseando Raquel Varela, uma das oradoras da noite), correndo sérios riscos de não se recolocar de pé, de levantar a cabeça, de ter orgulho em si e nos seus para entrar triunfante e com bases sólidas nos mercados. Uma economia forte não se pode dissociar da força de quem a alavanca, sejam empresários ou trabalhadores. Ficar é, hoje, tão doloroso como urgente, pois só todos, juntos, poderemos conseguir um Portugal melhor do que ontem e com capacidade para melhorar nos amanhãs que se aproximam.
Aqui, neste paradoxo, os portugueses e as empresas em Portugal, públicas ou privadas, têm um papel a desempenhar, uma palavra a dizer. É neste paradoxo sócio-laboral onde me encontro e para o qual quero e devo contribuir activamente. Os novos desafios competitivos obrigam-nos a ser melhores hoje do que fomos ontem.
No programa muito se falou da capacidade formativa em Portugal, situação que não consegue ser abarcada na plenitude por um mercado de trabalho estreito e curto. A emigração parece ser a decisão mais óbvia, portanto. Talvez não, se o Estado não se i
miscuir das suas responsabilidades. Neste particular, criar mecanismos para dinamizar a economia, como são: a captação de investimento directo estrangeiro que traga emprego; criar plataformas de investimento interno ao nível das PME´s, permitindo que alcancem outros voos que as levem, a médio prazo, a outras latitudes. As PME´s são o grosso do tecido empresarial nacional e é com elas que a economia nacional terá de ser alavancada; apostar de forma clara em sectores tão importantes como lógicos pelo posicionamento geográfico do País e pela oferta de recursos naturais, como são as pescas e a agricultura; ser, por fim, uma porta de entrada de mercadorias na Europa aproveitando o porto de Sines (tem vantagens claras sobre os seus concorrentes directos: Roterdão, Valência e Hamburgo) e a abertura do Canal do Panamá.
Só assim poderemos ter um Portugal melhor para quem está e que seja apetecível para os demais portugueses que, por esse Mundo fora, querem regressar e aportar para a economia as valências conseguidas noutras realidades.