Friday, January 22, 2021

Promessa falhada; spin: ensino privado é o culpado

 A 9 de abril, aquando do anúncio do Estudo Em Casa, método usado pelo Governo para colmatar a ausência de aulas presenciais devido à pandemia da COVID-19, o primeiro-ministro português, António Costa, assumiu que no início do ano lectivo seguinte (2020/21) estaria assegurado o acesso universal à plataforma digital

Pois bem, mais de 9 meses depois, Portugal volta a confinar e, apesar da tentativa de evitar o fecho das escolas até ao último segundo - contra todas as indicações dos especialistas -, o Governo lá teve de ceder e suspendeu todas as aulas - presenciais e online - nos ensinos público e privado. 

Esta suspensão levou a algumas indignações de um lado e palmas de outro. Não colocando em causa a decisão, que estava à vista de todos que teria de acontecer, nem discutindo a eficácia das aulas presenciais em contraponto com a menor eficiência das aulas à distância, o cerne da questão está, no meu ponto de vista, no falhanço do Governo em toda a linha na promessa feita a 9 de abril. Vá, em toda a linha não, porque se chegou a distribuir alguns computadores com acesso à internet, mas claramente insuficientes para suprir as necessidades dos alunos. 

Ao bater de frente com a promessa falhada, o que faz o Governo? Suspende o ensino para todos e lança, habilmente, o spin da falta de empatia e solidariedade dos colégios privados, como se fosse o ensino privado o diabo que levou o Governo a falhar com o ensino público. 

Não foram os colégios privados que prometeram uma plataforma digital universal. Foi António Costa. Esta decisão de não permitir as aulas à distância (e outras ações educativas, como revisões), para além de suscitar dúvidas constitucionais, nivela por baixo um ensino que já tem revelado descidas nos últimos três anos nos resultados do PISA e do TIMMS. 

Claro que quem define o calendário lectivo é o Governo, mas a compensação que vai acontecer em tempo de férias também podia suceder em alturas separadas. Ou seja, quem não tem condições pára agora, quem tem, realiza aulas online agora e faz uma interrupção mais à frente. Assim, não se estagnavam alunos durante, pelo menos 15 dias, com possibilidade de o tempo se prolongar, caso os números não baixem. 

Já agora... que o Governo retire lições das boas práticas de outros quadrantes sociais. Se o ensino privado conseguiu preparar-se em 9 meses, o Governo deve tentar perceber como aconteceu e adequar à sua realidade. A obrigatoriedade de concurso público (que deve acontecer) não é razão suficiente para justificar todo este bloqueio burocrático. Mas se assim é, é caso para perguntar: o que é feito do tão elogiado e propalado Simplex criado pelo Governo de José Sócrates? 

Monday, January 18, 2021

Nem tão bons em março, nem tão maus agora

O mesmo povo que foi elogiado em março, é o mesmo criticado agora. Nem na altura éramos tão bons (tivemos uma boa atitude, mas nem sempre é assim), nem somos tão maus agora. 

Se temos culpa enquanto população? Temos! Se somos os únicos culpados? Muito longe disso. Como latinos que somos, temos tendência para a chico-espertice e encontrar exceções às regras. O governo sabe disso, mas não quis saber e optou por medidas que não lhe tirasse popularidade. 

Consequências? Péssima gestão da segunda vaga, com medidas em contra ciclo com a restante Europa. Já para não falar que não preparámos a segunda vaga, apesar dos avisos, como a da Organização Mundial da Saúde em maio último (e já tinha até feito outro em abril), e reagimos tarde à mesma, com António Costa a dizer em novembro que “ninguém prévia que esta segunda vaga surgisse tão cedo”.

Conclusão: há vários culpados aqui. Não adiro ao spin que aí anda de que apenas o povo português tem culpa. O povo segue a mensagem transmitida e o governo falhou neste particular várias vezes.

Monday, April 20, 2020

OS MAIS E OS MENOS DA COVID-19


Em março irrompeu por Portugal o novo coronavírus, deixando o País, primeiro sobreaviso e, mais tarde, parado. Ou quase! Alguns sectores – como o Serviço Nacional de Saúde e os hospitais privados – mantiveram a atividade.
Com tempo e percebendo o impacto negativo que a COVID-19 tivera em países como China – de onde é originário –, Itália, Holanda, Suíça, Bélgica e mais tarde Espanha, Portugal jogou em antecipação. Os portugueses, antes de qualquer ordem marcial, rapidamente entenderam o problema e atacaram-no com responsabilidade. O teletrabalho entrou nas casas das pessoas, o confinamento começou a fazer parte do dia a dia… Os portugueses compreenderam que a vida não seria, para já, como dantes e o abdicar (com algumas – felizmente, poucas – exceções) de datas importantes como a Páscoa permitiu aplanar a curva mais cedo do que o mais optimista dos cenários.
A ministra da Saúde apontou ao hiato entre 23 e 25 de março como o pico do surto em Portugal. Não temos a certeza, mas os indicadores são positivos e o gráfico da Universidade Johns Hopkins não engana, a curva está a ser lentamente achatada.
A normalidade, segundo o primeiro-ministro António Costa, vai ser obtida de forma gradual e, espera-se, coordenada e ordenada a partir de maio. Ou seja, fica na retina a possibilidade de não se renovar o estado de emergência, depois de ter acontecido por três vezes, desde 19 de março.
Assim, é hora de apontar aos mais, aos menos e aos assim-assim desta fase:

OS MAIS:
António Costa: o primeiro-ministro foi firme e assertivo nas suas intervenções. Passou uma imagem de confiança aos portugueses e nunca transpareceu ter perdido o norte, mesmo que tivesse acontecido. Nestes momentos, Portugal precisa de líderes fortes. António Costa foi-o, mesmo que, aqui e ali, tivesse cometido gaffes, como a da austeridade. Num dia, não vai haver de certeza, seis dias depois, é uma possibilidade.
Rui Rio: um Governo é tão forte conforme a força vinda da oposição. Chapeau a Rui Rio nesta fase. Foi estadista, soube estar e isso trouxe-lhe elogios dentro e fora de portas. Até a bancada reconheceu as suas palavras de responsabilidade. Ainda assim, soube criticar quando foi preciso, como no caso da libertação dos presos. Ponto negativo? A carta aos militantes do PSD. Desnecessário!
Marta Temido: a ministra começou aos soluços, mas lá encontrou o trilho que a tem levado a bom porto. Da tremedura à solidificação. Assim é o trajeto de Marta Temido. Hoje, poucos põem em causa o porquê de se ter mantido no Governo contra todas as expectativas.
Profissionais de saúde e forças de segurança: incansáveis desde a primeira hora, têm respondido a preceito ao surto, sem esquecerem as demais doenças. O SNS, os hospitais privados, a PSP, a GNR e a Proteção Civil, hoje mais do que nunca, mostraram o quão necessário são para a manutenção da estabilidade social. A estes exigia-se quase o impossível e responderam com… um milagre. Muito obrigado!


OS MENOS:
Ferro Rodrigues: a insistência na celebração do 25 de Abril com 130 pessoas na Assembleia da República, sem consultar as autoridades de saúde, que têm norteado as decisões são só mais um prego no caixão da vida política do Presidente da AR. A este facto, junta-se uma postura muito pouco responsável para o cargo que ocupa. À cabeça, a dualidade de critérios em relação às bancadas de esquerda e de direita, permitindo desvarios a uns e sendo muito rigoroso para com outros. Mas há mais! A tentativa de apoucar deputados de direita como aconteceu com João Almeida do CDS não o dignificam como Presidente da casa da democracia.
Marcelo Rebelo de Sousa: o Presidente dos afectos foi traído pela COVID-19. A mesma não os permite e o Presidente da República pareceu vazio de conteúdo. Pouco ou nada tem dado ao País, a não ser o sentido de estado de ser o eco das decisões governamentais. É mau? Não! É pouco? É pouquíssimo para um Chefe de Estado em momentos de pandemia.
Graça Freitas: a celebração do 25 de Abril nestes moldes, sem o seu consentimento é só mais uma mancha no pano já por si bastante sujo. A diretora-geral da Saúde começou por apontar ao milhão de infetados, depois disse que afinal o coronavírus não ia chegar cá, depois não só não desautorizou as visitas aos lares, como os incentivou – com os resultados que se sabe –, não foi assertiva sobre se o ibuprofeno era ou não prejudicial, andando a reboque de uma OMS que também pareceu perdida, e foi pouco esclarecida sobre o uso ou não de máscaras. Os portugueses nunca puderam confiar ou contar com Graça Freitas. Assim, não vale a pena continuar.
André Ventura: num momento em que não se devia politizar a doença, o Chega, através de André Ventura, fê-lo, e em várias situações. Fê-lo no Parlamento com discursos incendiados e que pouco acrescentaram; fê-lo quando quis visitar doentes e lares, por demagogia e propaganda, pois sabia que isso só poria em perigo uma faixa etária já de si de risco; fê-lo ao afirmar ter entregue mantimento à igreja, com o padre a desmenti-lo. Só não o fez quando foi terminantemente contra a celebração do 25 de Abril nos moldes em que está pensado.

OS ASSIM-ASSIM:
João Cotrim de Figueiredo: A seu favor, a coerência que sempre teve no discurso, nomeadamente contra os sucessivos estados de emergência. Concorde-se ou não, tem esse mérito e explicou-o bem na AR. Ainda a seu favor, o aproveitar de forma irrepreensível o programa moderado pelo Ricardo Araújo Pereira: “Isto é gozar com quem trabalha”, da SIC, para explicar o que é ser um partido liberal em Portugal. Através da audiência e do eco nas Redes Sociais, os portugueses ficaram mais esclarecidos do que nunca nesta temática. De resto, o deputado da IL pouco acrescentou no estado de emergência e saiu pouco da sombra.
PCP e BE: não têm estado particularmente mal, mas têm sido bastante anulados pelo Partido Socialista, que tem sabido navegar este barco sem que preciso fosse ter os companheiros de Geringonça a bordo. Pouco ou nada têm acrescentado, sendo que os comunistas poderão ficar queimados com as iniciativas das centrais sindicais – CGTP e UGT – no 1 de maio. Veremos…

Monday, July 30, 2018

Era uma vez um Robles

A bomba rebentou nas mãos de Ricardo Robles, mas os estilhaços atingiram Catarina Martins, Mariana Mortágua e Francisco Louça: afinal, o maior arauto contra a especulação imobiliária, fazia-o com um prédio em Alfama, usando os mesmos métodos que criticara nos outros.

O problema não está na - legítima - tentativa de lucro de Robles e da sua irmã (a principal culpada, segundo as suas palavras). Todos os portugueses tentariam rentabilizar o mais possível o investimento feito. O problema está noutros factores. A ver:
- Ricardo Robles comprou o prédio à Segurança Social em hasta pública por um valor de 347 mil euros, quando já exercia um cargo na Assembleia Municipal, isto é, tinha acesso privilegiado a estes concursos e isso consagra um delito;

- Colocou um projeto na Câmara Municipal de Lisboa para aumentar um andar no prédio. A situação foi aceite no período de um ano, tempo recorde como se sabe. A relação promíscua vê-se no facto de se ter tornado deputado da CML pouco tempo depois;

- Robles usou os mesmos métodos de despejo que criticara noutros proprietários, o que faz cair a máscara da hipocrisia. Com esta atitude, mandou, pelo menos, 4 pessoas para o desemprego. Pior! Colocou as culpas na irmã, num acto que me escuso de qualificar;

- Não despejou um casal de idosos (devido a uma Lei criada pelo governo PSD/CDS), mas “deu-lhes a volta” ao convencê-los a aceitarem obras de melhoramento da fracção. O que isto implica? O contrato termina dentro de 8 anos e devido às obras feitas já poderão ser despejados;

- Manchou ainda mais a pouca dignidade que lhe restava ao arrastar por três dias o pedido de demissão e depois de ter dito que não o faria.

A este cenário negro, juntaram-se as paupérrimas desculpas de Mariana Mortágua, Catarina Martins e Francisco Louça. A primeira e o último, pela inteligência e capacidade de argumentação demonstraras ao longo dos anos, surpreenderam pela negativa. Foi triste vê-los a arrastar em desculpas em que eles próprios não acreditavam; Catarina Martins foi ainda mais longe e desceu mais  baixo: foi pela teoria da cabala e ainda acusou o PSD, qual José Sócrates.

Finalmente acossada, Catarina Martins mostrou o que já se vira: discurso de retórica, com poucas soluções que não sejam utópicas e com uma posição de superioridade moral de quem nunca esteve  no governo.

Pois bem, à Catarina e ao Bloco de Esquerda terminou a superioridade moral. Pelo menos aquela que achavam que tinham até estes dias.

Thursday, May 31, 2018

Ainda a eutanásia

Em tempos, neste mesmo blogue, tive a oportunidade de criticar a sofreguidão (da esquerda) com que a temática era enviada para a praça pública e para a discussão na sociedade civil.

Nessa altura, como em 2018, pouco mudou na forma como se lida com um assunto tão sério, complexo e íntimo como a eutanásia.

Ainda assim, desta feita, abriram-se portas que permitem percorrer um caminho rumo a um eventual “Sim”. A luta da esquerda - tal como na legalização do Aborto - vai continuar e a despenalização da eutanásia há-de ser uma realidade em Portugal. Mas há um caminho a percorrer...

Vamos por partes: a eutanásia não consta dos programas dos partidos para esta legislatura, foi trazida à discussão um pouco à força por aquilo que hoje se designa “ditadura das minorias”; não houve - ainda - uma discussão ampla, aberta, com elevação e assertividade sobre esta matéria, ouvindo médicos, cientistas, outros especialistas; não se auscultou a população e para isso, num assunto como este, só vejo a opção referendo; não se conhecem totalmente as visões (ao pormenor) de cada partido, com argumentos contra e a favor, mas todos construtivos, para que fiquem no ar o menor número de dúvidas possível, e neste caso incluem-se condições e gastos do Estado com a eutanásia.



A tudo isto junta-se o assunto saúde. A Holanda e a Suíça são vistos como exemplos de quem é favorável à despenalização da eutanásia. Ainda assim, do ponto de vista civilizacional, estamos atrás destes dois países. No caso da Holanda, por exemplo, a prática da morte clinicamente assistida é possível desde 2001, mas até lá foi feito um caminho louvável na prestação dos cuidados de saúde para a população. Ou seja, a eutanásia era possível em situação última, num país que estava (e está) na vanguarda no acesso e qualidade de cuidados médicos e paliativos.

Pois bem, em Portugal não é isso que se passa. Apostar já na eutanásia, no meio de tantos erros e dúvidas, não é o melhor caminho. Tal como se abriu um caminho para se discutir a despenalização da morte clinicamente assistida, abriu-se outro para se discutir o investimento na saúde, no acesso aos cuidados de saúde, nas condições oferecidas pelos hospitais públicos, no acesso aos cuidados paliativos.

Que se façam os dois, mas digo: discuta-se primeiro a vida para depois o fazermos em relação à morte.

Monday, March 5, 2018

O filme falso lento

A razão para atribuir este título ao texto sobre o filme “Três cartazes à beira da estrada”, explicarei mais adiante. Para já, é de realçar o excelente papel desempenhado por Frances McDormand, confirmando-se como umas das melhores actrizes de Hollywood depois do que já mostrara em “Destruir depois de ler” e "Fargo".

A actriz, que interpreta Mildred, uma mulher do Sul, amargurada pela perda da filha Angela e pela impotência da polícia local - Ebbing - para resolver o caso, arrasta o filme com uma qualidade insuperável, mas muito bem coadjuvada por Woody Harrelson e, principalmente, Sam Rockwell, que demonstra nesta fita mais capacidade e talento do que o que demonstrara em os “Anjos de Charlie”.



A história idealizada e realizada por Martin McDonagh passa-se em Ebbing, no Sul profundo dos Estados Unidos da América. Tal como a localidade, também filme parece, à primeira vista, parado, fruto de vários planos parados, mas nada mais errado. Tal como indica o título, o filme é falso lento, pois o que o realizador nos dá (e bem) é o ritmo próprio de Ebbing e que se adequa na perfeição ao ritmo do argumento. Uma cidade pacata, com vida própria e sem às pressas (e pressões) que se encontram nas grandes metrópoles. Ainda assim, cumpre o primeiro grande quesito para ser um sucesso: prende-nos à cadeira de princípio a fim, muito por culpa de um culpado para a morte de Angela que insiste, até depois do genérico final, em não aparecer.

Há, ainda, a simplicidade de uma estrada deserta com os três cartazes e onde se desenrola grande parte da trama. Incrível como Martin McDonagh nos dá aquela densidade com simples três cartazes. Aquela mensagem forte de injúria à polícia local é, afinal, o rastilho que faz atear o fogo, e que complementa um texto forte, mormente as deixas protagonizadas por Frances McDormand.

Destaque, ainda, para a excelente e adequada banda sonora bem ao estilo do Sul, bem como à fotografia muito bem conseguida. Posto isto, “Três cartazes à beira da estrada” é um filme completo e merecedor, para já, da nomeação aos Óscares.

Monday, November 13, 2017

Os jantares do Panteão

O jantar da Web Summit no Panteão Nacional é um erro e, pior do que isso, é uma falta de respeito para a história de Portugal e as suas figuras incontornáveis. Estamos de acordo!

Ainda assim, pior do que o jantar é ver, tal como Pilatos, um primeiro-ministro lavar daqui as mãos e ir a terreiro “twittar” que a utilização era “indigna” e que faltava ao respeito à memória dos símbolos da história nacional.

Como primeiro-ministro, António Costa pode e deve indignar-se. O que não pode é atirar a pedra e esconder a mão quando, em 2013, a Associação de Turismo de Portugal lá organizou um evento quando António Costa era presidente à altura.

Não pode, ainda, atirar responsabilidades ao anterior governo quando o despacho de 2014 é claro ao referir que a direcção geral do Património Cultural “se reserva ao direito de não autorizar o aluguer ou cedência de espaços”.

Pode e deve, isso sim, reconhecer o erro - por uma vez que seja - e recordar que já em 2017 autorizara um evento de uma empresa pública no mesmo espaço.