Em tempos, neste mesmo blogue, tive a oportunidade de criticar a sofreguidão (da esquerda) com que a temática era enviada para a praça pública e para a discussão na sociedade civil.
Nessa altura, como em 2018, pouco mudou na forma como se lida com um assunto tão sério, complexo e íntimo como a eutanásia.
Ainda assim, desta feita, abriram-se portas que permitem percorrer um caminho rumo a um eventual “Sim”. A luta da esquerda - tal como na legalização do Aborto - vai continuar e a despenalização da eutanásia há-de ser uma realidade em Portugal. Mas há um caminho a percorrer...
Vamos por partes: a eutanásia não consta dos programas dos partidos para esta legislatura, foi trazida à discussão um pouco à força por aquilo que hoje se designa “ditadura das minorias”; não houve - ainda - uma discussão ampla, aberta, com elevação e assertividade sobre esta matéria, ouvindo médicos, cientistas, outros especialistas; não se auscultou a população e para isso, num assunto como este, só vejo a opção referendo; não se conhecem totalmente as visões (ao pormenor) de cada partido, com argumentos contra e a favor, mas todos construtivos, para que fiquem no ar o menor número de dúvidas possível, e neste caso incluem-se condições e gastos do Estado com a eutanásia.
A tudo isto junta-se o assunto saúde. A Holanda e a Suíça são vistos como exemplos de quem é favorável à despenalização da eutanásia. Ainda assim, do ponto de vista civilizacional, estamos atrás destes dois países. No caso da Holanda, por exemplo, a prática da morte clinicamente assistida é possível desde 2001, mas até lá foi feito um caminho louvável na prestação dos cuidados de saúde para a população. Ou seja, a eutanásia era possível em situação última, num país que estava (e está) na vanguarda no acesso e qualidade de cuidados médicos e paliativos.
Pois bem, em Portugal não é isso que se passa. Apostar já na eutanásia, no meio de tantos erros e dúvidas, não é o melhor caminho. Tal como se abriu um caminho para se discutir a despenalização da morte clinicamente assistida, abriu-se outro para se discutir o investimento na saúde, no acesso aos cuidados de saúde, nas condições oferecidas pelos hospitais públicos, no acesso aos cuidados paliativos.
Que se façam os dois, mas digo: discuta-se primeiro a vida para depois o fazermos em relação à morte.

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