A bomba rebentou nas mãos de Ricardo Robles, mas os estilhaços atingiram Catarina Martins, Mariana Mortágua e Francisco Louça: afinal, o maior arauto contra a especulação imobiliária, fazia-o com um prédio em Alfama, usando os mesmos métodos que criticara nos outros.
O problema não está na - legítima - tentativa de lucro de Robles e da sua irmã (a principal culpada, segundo as suas palavras). Todos os portugueses tentariam rentabilizar o mais possível o investimento feito. O problema está noutros factores. A ver:
- Ricardo Robles comprou o prédio à Segurança Social em hasta pública por um valor de 347 mil euros, quando já exercia um cargo na Assembleia Municipal, isto é, tinha acesso privilegiado a estes concursos e isso consagra um delito;
- Colocou um projeto na Câmara Municipal de Lisboa para aumentar um andar no prédio. A situação foi aceite no período de um ano, tempo recorde como se sabe. A relação promíscua vê-se no facto de se ter tornado deputado da CML pouco tempo depois;
- Robles usou os mesmos métodos de despejo que criticara noutros proprietários, o que faz cair a máscara da hipocrisia. Com esta atitude, mandou, pelo menos, 4 pessoas para o desemprego. Pior! Colocou as culpas na irmã, num acto que me escuso de qualificar;
- Não despejou um casal de idosos (devido a uma Lei criada pelo governo PSD/CDS), mas “deu-lhes a volta” ao convencê-los a aceitarem obras de melhoramento da fracção. O que isto implica? O contrato termina dentro de 8 anos e devido às obras feitas já poderão ser despejados;
- Manchou ainda mais a pouca dignidade que lhe restava ao arrastar por três dias o pedido de demissão e depois de ter dito que não o faria.
A este cenário negro, juntaram-se as paupérrimas desculpas de Mariana Mortágua, Catarina Martins e Francisco Louça. A primeira e o último, pela inteligência e capacidade de argumentação demonstraras ao longo dos anos, surpreenderam pela negativa. Foi triste vê-los a arrastar em desculpas em que eles próprios não acreditavam; Catarina Martins foi ainda mais longe e desceu mais baixo: foi pela teoria da cabala e ainda acusou o PSD, qual José Sócrates.
Finalmente acossada, Catarina Martins mostrou o que já se vira: discurso de retórica, com poucas soluções que não sejam utópicas e com uma posição de superioridade moral de quem nunca esteve no governo.
Pois bem, à Catarina e ao Bloco de Esquerda terminou a superioridade moral. Pelo menos aquela que achavam que tinham até estes dias.
Monday, July 30, 2018
Thursday, May 31, 2018
Ainda a eutanásia
Em tempos, neste mesmo blogue, tive a oportunidade de criticar a sofreguidão (da esquerda) com que a temática era enviada para a praça pública e para a discussão na sociedade civil.
Nessa altura, como em 2018, pouco mudou na forma como se lida com um assunto tão sério, complexo e íntimo como a eutanásia.
Ainda assim, desta feita, abriram-se portas que permitem percorrer um caminho rumo a um eventual “Sim”. A luta da esquerda - tal como na legalização do Aborto - vai continuar e a despenalização da eutanásia há-de ser uma realidade em Portugal. Mas há um caminho a percorrer...
Vamos por partes: a eutanásia não consta dos programas dos partidos para esta legislatura, foi trazida à discussão um pouco à força por aquilo que hoje se designa “ditadura das minorias”; não houve - ainda - uma discussão ampla, aberta, com elevação e assertividade sobre esta matéria, ouvindo médicos, cientistas, outros especialistas; não se auscultou a população e para isso, num assunto como este, só vejo a opção referendo; não se conhecem totalmente as visões (ao pormenor) de cada partido, com argumentos contra e a favor, mas todos construtivos, para que fiquem no ar o menor número de dúvidas possível, e neste caso incluem-se condições e gastos do Estado com a eutanásia.
A tudo isto junta-se o assunto saúde. A Holanda e a Suíça são vistos como exemplos de quem é favorável à despenalização da eutanásia. Ainda assim, do ponto de vista civilizacional, estamos atrás destes dois países. No caso da Holanda, por exemplo, a prática da morte clinicamente assistida é possível desde 2001, mas até lá foi feito um caminho louvável na prestação dos cuidados de saúde para a população. Ou seja, a eutanásia era possível em situação última, num país que estava (e está) na vanguarda no acesso e qualidade de cuidados médicos e paliativos.
Pois bem, em Portugal não é isso que se passa. Apostar já na eutanásia, no meio de tantos erros e dúvidas, não é o melhor caminho. Tal como se abriu um caminho para se discutir a despenalização da morte clinicamente assistida, abriu-se outro para se discutir o investimento na saúde, no acesso aos cuidados de saúde, nas condições oferecidas pelos hospitais públicos, no acesso aos cuidados paliativos.
Que se façam os dois, mas digo: discuta-se primeiro a vida para depois o fazermos em relação à morte.
Nessa altura, como em 2018, pouco mudou na forma como se lida com um assunto tão sério, complexo e íntimo como a eutanásia.
Ainda assim, desta feita, abriram-se portas que permitem percorrer um caminho rumo a um eventual “Sim”. A luta da esquerda - tal como na legalização do Aborto - vai continuar e a despenalização da eutanásia há-de ser uma realidade em Portugal. Mas há um caminho a percorrer...
Vamos por partes: a eutanásia não consta dos programas dos partidos para esta legislatura, foi trazida à discussão um pouco à força por aquilo que hoje se designa “ditadura das minorias”; não houve - ainda - uma discussão ampla, aberta, com elevação e assertividade sobre esta matéria, ouvindo médicos, cientistas, outros especialistas; não se auscultou a população e para isso, num assunto como este, só vejo a opção referendo; não se conhecem totalmente as visões (ao pormenor) de cada partido, com argumentos contra e a favor, mas todos construtivos, para que fiquem no ar o menor número de dúvidas possível, e neste caso incluem-se condições e gastos do Estado com a eutanásia.
A tudo isto junta-se o assunto saúde. A Holanda e a Suíça são vistos como exemplos de quem é favorável à despenalização da eutanásia. Ainda assim, do ponto de vista civilizacional, estamos atrás destes dois países. No caso da Holanda, por exemplo, a prática da morte clinicamente assistida é possível desde 2001, mas até lá foi feito um caminho louvável na prestação dos cuidados de saúde para a população. Ou seja, a eutanásia era possível em situação última, num país que estava (e está) na vanguarda no acesso e qualidade de cuidados médicos e paliativos.
Pois bem, em Portugal não é isso que se passa. Apostar já na eutanásia, no meio de tantos erros e dúvidas, não é o melhor caminho. Tal como se abriu um caminho para se discutir a despenalização da morte clinicamente assistida, abriu-se outro para se discutir o investimento na saúde, no acesso aos cuidados de saúde, nas condições oferecidas pelos hospitais públicos, no acesso aos cuidados paliativos.
Que se façam os dois, mas digo: discuta-se primeiro a vida para depois o fazermos em relação à morte.
Monday, March 5, 2018
O filme falso lento
A razão para atribuir este título ao texto sobre o filme “Três cartazes à beira da estrada”, explicarei mais adiante. Para já, é de realçar o excelente papel desempenhado por Frances McDormand, confirmando-se como umas das melhores actrizes de Hollywood depois do que já mostrara em “Destruir depois de ler” e "Fargo".
A actriz, que interpreta Mildred, uma mulher do Sul, amargurada pela perda da filha Angela e pela impotência da polícia local - Ebbing - para resolver o caso, arrasta o filme com uma qualidade insuperável, mas muito bem coadjuvada por Woody Harrelson e, principalmente, Sam Rockwell, que demonstra nesta fita mais capacidade e talento do que o que demonstrara em os “Anjos de Charlie”.
A história idealizada e realizada por Martin McDonagh passa-se em Ebbing, no Sul profundo dos Estados Unidos da América. Tal como a localidade, também filme parece, à primeira vista, parado, fruto de vários planos parados, mas nada mais errado. Tal como indica o título, o filme é falso lento, pois o que o realizador nos dá (e bem) é o ritmo próprio de Ebbing e que se adequa na perfeição ao ritmo do argumento. Uma cidade pacata, com vida própria e sem às pressas (e pressões) que se encontram nas grandes metrópoles. Ainda assim, cumpre o primeiro grande quesito para ser um sucesso: prende-nos à cadeira de princípio a fim, muito por culpa de um culpado para a morte de Angela que insiste, até depois do genérico final, em não aparecer.
Há, ainda, a simplicidade de uma estrada deserta com os três cartazes e onde se desenrola grande parte da trama. Incrível como Martin McDonagh nos dá aquela densidade com simples três cartazes. Aquela mensagem forte de injúria à polícia local é, afinal, o rastilho que faz atear o fogo, e que complementa um texto forte, mormente as deixas protagonizadas por Frances McDormand.
Destaque, ainda, para a excelente e adequada banda sonora bem ao estilo do Sul, bem como à fotografia muito bem conseguida. Posto isto, “Três cartazes à beira da estrada” é um filme completo e merecedor, para já, da nomeação aos Óscares.
A actriz, que interpreta Mildred, uma mulher do Sul, amargurada pela perda da filha Angela e pela impotência da polícia local - Ebbing - para resolver o caso, arrasta o filme com uma qualidade insuperável, mas muito bem coadjuvada por Woody Harrelson e, principalmente, Sam Rockwell, que demonstra nesta fita mais capacidade e talento do que o que demonstrara em os “Anjos de Charlie”.
A história idealizada e realizada por Martin McDonagh passa-se em Ebbing, no Sul profundo dos Estados Unidos da América. Tal como a localidade, também filme parece, à primeira vista, parado, fruto de vários planos parados, mas nada mais errado. Tal como indica o título, o filme é falso lento, pois o que o realizador nos dá (e bem) é o ritmo próprio de Ebbing e que se adequa na perfeição ao ritmo do argumento. Uma cidade pacata, com vida própria e sem às pressas (e pressões) que se encontram nas grandes metrópoles. Ainda assim, cumpre o primeiro grande quesito para ser um sucesso: prende-nos à cadeira de princípio a fim, muito por culpa de um culpado para a morte de Angela que insiste, até depois do genérico final, em não aparecer.
Há, ainda, a simplicidade de uma estrada deserta com os três cartazes e onde se desenrola grande parte da trama. Incrível como Martin McDonagh nos dá aquela densidade com simples três cartazes. Aquela mensagem forte de injúria à polícia local é, afinal, o rastilho que faz atear o fogo, e que complementa um texto forte, mormente as deixas protagonizadas por Frances McDormand.
Destaque, ainda, para a excelente e adequada banda sonora bem ao estilo do Sul, bem como à fotografia muito bem conseguida. Posto isto, “Três cartazes à beira da estrada” é um filme completo e merecedor, para já, da nomeação aos Óscares.
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