Propositadamente, sabendo eu, de antemão, que iria almoçar a
um Centro Comercial, atrasei algumas tarefas do meu trabalho. Num dia normal do
ano teria sido uma boa ideia, nesta altura, é catastrófico!
Ao entrar com o carro no parque de estacionamento, e depois
de tirar o bilhete que permitiu abrir a cancela, deparei-me com o primeiro
choque que foi, nada mais, nada menos do que o aquecimento para que me esperava
doravante. O parque de estacionamento completamente cheio não augurava nada de
bom…
Ao subir para a superfície comercial, o primeiro contacto
com pessoas confirmava o que já esperava: muitas mais pessoas do que o habitual
e fazer o caminho até ao meu destino seria uma luta. Razão: Compras de Natal!
Nas escadas rolantes o antagonismo daquilo que já verifiquei
noutros países europeus. Nesses, todas as pessoas, ordenadamente, colocam-se à
direita para que a esquerda seja de passagem, mas em Portugal, as “faixas” da
direita e da esquerda têm o mesmo significado e a mim só restou esperar chegar
ao topo.
Seguiram-se os corredores que cheios de pessoas, carrinhos
de bebés, sacos com compras ou, somente, pessoas a olharem para montras em
busca do “tesouro” próprio desta época festiva obrigaram-me a ziguezaguear para
chegar onde pretendia, isto, é zona de refeições para, finalmente, almoçar.
Nesta zona o pânico apoderou-se de mim ao constatar algo que
já desconfiava: gente e gente por todo o lado, restaurantes com filas
intermináveis e não havia lugares para sentar. Seria um desafio e tanto, mas na
vida como no trabalho não sou de rejeitar desafios. Agarrei-os com as duas
mãos, enchi-me de coragem e penetrei naquele emaranhado até à minha escolha
culinária. Quando antes pensara ter tido sorte, percebi que tinha tido azar… O
meu pedido foi todo trocado e o serviço acabou por não corresponder às minhas
expectativas. Agora só faltava um lugar para conseguir comer…
A uma volta seguiu-se outra e um lugar à minha espera. Longe
de ser o melhor, mas tendo em conta as condicionantes não poderia ser muito
exigente. Finalizado tal repasto chegava, obrigatoriamente, a hora do café, a
hora da absorção de algo que fará sentir vivo para o restante dia e que me fará
abstrair do que rodeia naquele pequeno momento. Nada mais errado! Sem espaço
para me chegar sequer ao balcão tive a sorte de ser visto por uma rapariga simpática
que me serviu com a rapidez possível e lá fui até à mesa que me faria “desligar”
desta realidade consumista.
Não foi assim, o ruído de fundo, uma série de conversas de
café que se cruzam, se encontram, se entroncam não me deixavam espaço para a
desejada abstracção. Este cenário levou-me a pensar nos valores do Natal, que
deveriam ser de hoje e de sempre, mas que não são. Outrora movimentado a
sentimentos de generosidade, de solidariedade, de comunhão familiar e com o próximo,
o Natal é hoje – infelizmente – movimentado a um consumismo extremo, quase sem
limites (a Troika ainda impõe alguns) em que, desmesuradamente se procura um
presente, uma lembrança como se daí o Mundo já não desabasse.
Estes presentes têm um significado diferente em tempos de
crise económico-financeira, acredito. Enchem-nos o ego, acredito. Colocam-nos
um sorriso cada vez mais escasso nos lábios, acredito. Mas será que não
poderíamos aproveitar esta fase para, igualmente, elevar de novo os verdadeiros
valores da época natalícia, deixando o consumismo para outras núpcias?
Nota: Sei que tenho o relógio biológico a dar horas (se é
que este existe nos homens), mas não havia necessidade de haver tanta criança e
carrinho de bebés no Centro Comercial.

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