Monday, November 2, 2015

As sargetas e a política ou a política de sargeta


O Ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, entrou “a matar” em funções. Ao dizer que é importante “reservar algum dinheiro para depois ter seguro”, o Ministro disse uma verdade insofismável, mas já comprou uma guerra.


Não vai mal nenhum ao Mundo por o fazer. Consciencializar o empresário, seja em que sector for, que deveria fazer seguro para prevenir o máximo de riscos da sua empresa é do mais elementar; dizer ainda que o Estado vai actuar em caso de calamidade pública também não é novidade, pois a Lei a isso obriga. Porém, o problema aqui pode estar na forma ou na sensibilidade de um povo pouco habituado a este tipo de afirmações contundentes.

Até aqui ainda se compreende o que disse o Ministro. Todavia, João Calvão da Silva esteve mal ao não responsabilizar a(s) autarquia(s) responsáveis pela limpeza das sargetas. É sempre assim todos os anos a seguir ao Verão. Depois de calor abrasador durante vários meses – principalmente no Algarve – é obrigatório limpar o lixo das sargetas a fim de evitar danos maiores provenientes da subida do caudal dos rios.

Deveria ser prática comum em todas as localidades do País, mas a prática comum das autarquias é… esquecer! Tal esquecimento torna-se dolo para os cidadãos, as suas habitações, empresários e as suas lojas e não há seguro que os valha. Dolo maior – com o epíteto de crime – pode ser considerada a morte que ocorreu em Boliqueime em consequência das cheias deste domingo.

Disse o Ministro de Administração Interna que a vítima das cheias “entregou-se a Deus e Deus, com certeza, lhe reserva um lugar adequado”. Desconhecendo a devoção religiosa de João Calvão da Silva, a afirmação proferida tem muito que se lhe diga e à primeira leitura não cai bem.

Mas há mais casos de má gestão de sargetas. António Costa é pródigo em problemas deste género. Há pouco mais de um ano, em Outubro de 2014, Lisboa foi acossada por umas cheias. O então presidente da Câmara Municipal de Lisboa lamentou com resignação que “não há solução para o problema de Lisboa”.

Pode não haver – acrescento eu –, pode ser um problema geográfico, de ordenamento, até pode ser um caso de morfologia urbana, mas estou certo de que limpando as sargetas possivelmente as cheias não teriam a proporção que tiveram em 2014.

António Costa, ao invés de afirmar o que afirmou e de gerir este problema da capital em Coimbra pelo telemóvel, deveria ter-se prontificado em viajar imediatamente para Lisboa a fim de perceber o epicentro do problema e focar-se na solução para estas cheias e para as vindouras. 

2 comments:

  1. Entupido

    Na orla ribeirinha as intervenções contemporâneas, designadamente, o programa POLIS, tem sempre como prioridade valorizar as praias. Percebe-se. É frequente (fez-se isso em Albufeira, com aprovação de tudo e todos ao que me disseram na CCDR Algarve) murar os limites das praias para as proteger do vento e da água, por exemplo, que transportam lixo para o areal.

    1. Percebe-se a valorização das praias. São uma instituição nacional, o chamado país com natureza generosa, principalmente no Verão (seco e quente) ao contrário do que é normal. Só existe no clima mediterrânico - embora com rigor, por existir, em quatro zonas do Mundo - deveria chamar-se subtropical seco;

    2. São factor importante para o turismo. Atractivo: areia, mar e Sol. Os três esses em english. Sem dúvida as melhores praias da Europa, porque as mais equilibradas. Água menos quente que as do Sul, no mar Mediterrâneo, mas mais limpa, com areia em vez de cascalho rolado. Paisagem inferior, mas muito semelhante às oceânicas do Norte mas água mais tépida. Una espécie de praias tropicais com água cinco/dez graus menos quente. Uma dádiva;

    3. As praias são tratadas como um tesouro nacional. Gastam-se milhões para ter retorno de outro tanto. Tira-se areia do Mar no início do Verão que vai desaparecer durante o Inverno regressando ao mesmo sítio de onde foi tirada. Detonam-se arribas naturais por serem perigosas podendo soterrar veraneantes. Concessionam-se, limpam-se, vasculham-se. Fazem-se muros para as proteger;

    4. Entre o Outono e a Primavera quando se concentra muita chuva em escassas horas com preia-mar (e saneamento entupido pela água do mar devido às marés) as localidades ribeirinhas - no litoral marinho ou estuários dos rios - gera-se o caos;

    5. Tem solução. Pode ter, ainda que haja fenómenos naturais que a tecnologia humana ainda não consegue controlar. Mas...como estes fenómenos estranhos acontecem de tempos-a-tempos. Até lá esquece-se, fazem-se obras e construções que potenciam problemas porque... só ocorrem de tempos a tempos. Enquanto o pau vai e vem descansam as costas!

    Mais uma vez o "velho problema português": não se pode ter tudo ou não se pode ter o melhor de dois mundos ou o adágio popular (por isso agrícola) querer ter Sol na eira e chuva no nabal.

    Chuva não!

    Alberto Miguéns

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    1. É sempre um prazer ler os seus comentários, pelo que se aprende.

      Eu, por exemplo, desconhecia alguns dos factos que aqui explanou.

      Obrigado!

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