Estavas de férias no Algarve e as dores já te apoquentavam há umas semanas. Não querias - sempre foste assim - ceder e preocupar a tua família. Foi preciso insistir e a dor mandar-te abaixo para te renderes à evidência de ir ao hospital.
Foi o princípio do pior diagnóstico possível: tinhas um tumor no estômago. Daqueles agressivos, galopantes e que nos deixa estatelados no chão. A todos menos a ti. Agarraste-te à vida com todas as tuas forças (foi sempre o exemplo que me passaste e que comigo perdurará) e este só te venceu a 14 de Agosto de 2014. De permeio foram mais de três anos de sofrimento, muito, daquele que não consigo sequer imaginar. Mas tu, invariavelmente, negavas a evidência, tinhas sempre um sorriso ou uma palavra positiva quando te perguntávamos como estavas ou como tinha sido o dia.
Sempre muito bem acompanhado por uma equipa médica insuperável e à qual deixo o meu eterno agradecimento (também eles foram heróis, mas permitam-me a ousadia de considerar o meu pai o maior herói de todos), o tumor foi-te retirado. A "reboque" ficaste sem estômago e sem baço mas não te rendeste. Nunca! Jamais! Sempre foste um lutador até ao último segundo dos teus 59 anos de vida. Foi assim que viveste, fizeste-te assim quando aos 11 anos vieste para Lisboa com o que tinhas no corpo para trabalhar, atrás do sonho que não o "American Dream" mas o teu "dream". Este legado passaste e deixas comigo para que o permita seguir para as gerações vindouras.
Trabalhaste muito, de forma abnegada, heróica, estóica e dedicada, com um profissionalismo e saber sem iguais e aos 24 anos já eras (como muitas vezes me dizias) empresário, pai e marido. Que orgulho! Eu não era nada aos 24 anos comparativamente contigo, mas os valores, princípios e forma de estar na vida são ensinamentos que já detinha (e detenho ainda) aos 24 anos.
Durante a vida que tivemos em comum, meu pai, nem sempre concordámos, por vezes chocámos, mas o respeito e amor que nutrimos um pelo outro superou sempre todas e quaisquer adversidades. De mãos dadas, unidos, os três (a minha mãe também é protagonista deste caminho a que chamamos vida) superámos tudo como uma verdadeira família que seremos sempre mesmo que estejas a ver-nos do céu, com panorâmica como sempre tiveste a capacidade de ver, pois ao fim e ao cabo, sempre foste o nosso "visionário" e a luz que nos guiou.
Vivemos muito. Tudo de forma intensa, espontânea e natural. Com um sorriso nos lábios, um brilho nos olhos e com um positivismo sem igual entregámo-nos à vida e vivemo-la. Viajámos, passeámos, falámos, brincámos, rimos, fizemos grandes festas jantaradas, almoçaradas, pic-nic´s...
São estas e todas as outras memórias positivas que ficam em paralelo com uma saudade que vai teimar em me acompanhar até ao fim dos meus dias.
No final da tarde do dia 14 de Agosto de 2014 partiste fisicamente, mas ficarás sempre em espírito no meu coração e no da minha mãe, a esposa que escolheste e que sempre esteve do teu lado.
Até sempre pai!

Os meus sentimentos.
ReplyDeleteMas...um filho não deixa de ser a continuação do pai.
Uma letra de uma canção que ele (penso que) conhecia.
Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo
Esses seus cabelos brancos, bonitos
Esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas num grito
Me ensinando tanto do mundo
E esses passos lentos de agora
Caminhando sempre comigo
Já correram tanto na vida
Meu querido, meu velho, meu amigo
Sua vida cheia de histórias
E essas rugas marcadas pelo tempo
Lembranças de antigas vitórias
Ou lágrimas choradas ao vento
Sua voz macia me acalma
E me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo
Seu passado vive presente
Nas experiências contidas
Nesse coração consciente
Da beleza das coisas da vida
Seu sorriso franco me anima
Seu conselho certo me ensina
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Eu já lhe falei de tudo
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Roberto Carlos/ Erasmo Carlos
Muito obrigado Alberto!
ReplyDeleteConhecia e gostava :)
Roberto Carlos era um dos intérpretes musicais que o meu pai mais apreciava. Curioso tê-lo colocado aqui.
Abr,
Marco,
DeleteColoquei porque sabia, pelo filho (Marco) numa conversa acerca de gostos musicais de várias gerações em Portugal, que ele em adolescente gostava de Roberto Carlos. Gostando do cantor brasileiro dificilmente não gostaria desta canção.
Certamente que ele - apesar de ser pastel - por adorar o filho (Marco) também é uma das estrelas que brilha no Quarto Anel a velar pelo bem-estar e futuro do filho... Acredito
Saudações
Alberto Miguéns